Ah, Esse Anjo da Guarda

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            Brasília é uma cidade traz o céu para perto da gente. A começar pelo seu formato de ave ou de avião, depende da imaginação de quem vê o mapa da cidade. As ruas largas, os prédios baixos, os amplos horizontes, tudo isso contribui para que nos aproximemos do imenso azul.

            Ademais, a cidade tem uma longa história com a aviação. Nos tempos da construção, o avião era o meio mais usado para se chegar e sair desses confins do Brasil. Hoje não temos a noção de como isso tudo aqui ficava longe das grandes cidades brasilerias da época. Não havia estradas, não havia infraestrutura, era o fim da linha.

            Imaginem juntar o fascínio que toda criança tem por voar com a liberdade de viver em uma cidade assim! É o ambiente perfeito para dar asas à rica fantasia infantil.

           Meu amigo Paulo Perez era uma dessas crianças que viveu na Brasília dos anos 70 e 80 e é filho de um dos primeiros aeromodelistas da cidade. Aqui um parêntese para falar do pai desse meu amigo. Rodolfo Perez nasceu em 1935 e tornou-se aeromodelista já na infância. Era um verdadeiro apaixonado pelo hobby, fazia jus ao título de aeromodelista. Não era como a maioria dos pilotos de aeromodelo de hoje, que compram tudo pronto e ficam chateados se o kit tem mais que duas peças para colar. Naquela época de ouro era bem diferente. Quase tudo tinha que ser montado do zero. Você começava o projeto de um novo modelo somente pela planta. Até parte da eletrônica tinha que ser fabricada ou montada pelo próprio aeromodelista. Era uma coisa de um certo heroísmo conseguir fazer um modelo radiocontrolado voar.

        Paulinho nos conta que sonhado em voar, certo dia se deparou com a embalagem de papelão de uma geladeira nova que seu pai comprara. Mais um parêntese: hoje em dia as geladeiras são embaladas em um saco plástico. Diga o leitor se o mundo não vai ficando mais sem graça a cada dia! Então, voltando ao ponto, aquele monte de papelão deu uma grande ideia a nosso amigo: aquilo era tudo que ele precisava para finalmente voar. Sim, agora estava fácil, pensou ele; e naquela noite quase não conseguiu dormir pensando como faria seu avião de papelão! Não seria um aeromodelo, seria um avião em escala real!

                Rapidamente chegou a um bom projeto. Não faria uma aeronave convencional para ele ir dentro. Não, pelo contrário, o seu corpo seria parte do engenho. As asas seriam amarradas em seus braços. Dois grandes retângulos devidamente curvados para garantir rigidez e perfil sustentador. Logo providenciou as amarras que prenderiam as asas em seus braços. Seriam duas cordas em cada braço, uma no punho e outra perto do ombro. O cone de cauda seria formado por suas pernas, e toda a parte de trás de um avião, que para os leigos são aquelas asinhas que ficam atrás, seriam presas a suas pernas.

                Ótimo, estava tudo decidido. O projeto estava em sua cabeça. Não havia como dar errado. Leiam ele mesmo contando a aventura e como tudo terminou:

" - Quando vi aquele papelão tão grande, me vi voando do telhado de meu prédio de três andares...

- Cortei as asas, prendi os suportes para enfiar os braços e aí imaginei que precisaria de leme e estabilizador vertical (as tais asinhas que ficam na cauda do avião).

- Vejam que eu já tinha noção de aerodinâmica!

- Pois então. Planejei prender o estabilizador nas batatas das pernas, perto dos calcanhares, e usar o movimento de flexão dos joelhos para agir como um profundor. Planejava dar uma cabrada(elevar o nariz da aeronave) na hora do pouso. Já o leme, seria montado no estabilizador e subiria entre meus pés.

- Já fazia dias que eu estava com tudo aquilo preparado e pensando num jeito de chegar ao telhado do prédio para decolar. No teto do terceiro andar havia uma clarabóia que daria acesso às duas lajes anteriores às telhas. Eu precisaria de uma escada bem alta.

- No piso térreo do prédio eu me prendia às partes do avião e treinava o voo, deitado com a barriga no chão, os braços esticados em cruz, pernas juntas e esticadas para manter íntegro o formato da aeronave, e treinava o comando de profundor para não exagerar no momento do pouso.

- Porém, numa certa manhã aconteceu algo que até hoje nunca entendi: Minhas asas desapareceram!

- Até hoje me pergunto se algum adulto fez isso, ou se foi meu Anjo de Guarda!"

                Que grande mistério, meus amigos! E está feita a crônica!

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